A Mala

Era um daqueles dias que tudo dá errado. O alarme não soa, tu perdes o ônibus, derramas molho de tomate na blusa branca durante o almoço, o chefe grita pelo escritório pedindo por um grampeador que estava do lado do mouse dele e, na volta pra casa, começa a chover.

Como de costume, quando cheguei na parada de ônibus, coloquei os fones de ouvido. Lá, as mesmas pessoas, com as mesmas expressões cansadas, penteados excêntricos, e sorrisos forçados. Fechei os olhos tentando me perder em qualquer música aleatória.

Quando abri os olhos, percebi que havia passado mais de uma hora e meia. Não havia nada nem ninguém na parada. Nada exceto por uma mala. Quem deixaria aquilo ali? Não sabia o que fazer com aquilo, então não fiz nada.

Nos dias que se seguiram, a mala continuava lá, intacta. “Que diabos?”, pensei comigo mesma. Ninguém havia nem mesmo olhado por curiosidade. Era como se somente eu pudesse vê-la. Não sei se acidentalmente de propósito ou propositadamente sem querer, mas eu abri aquela mala.

Com muito cuidado e apreensão, fui explorando seu conteúdo. Para minha surpresa, havia muitas coisas minhas ali. Ou coisas tão parecidas com as minhas. Umas tão bonitas, outras nem tanto. Cada papelzinho amassado e rabiscado, cada fotografia, cada ingresso, cada encarte de CD, cada lembrança fazia com que eu quisesse aquela mala pra mim.

Tomei-a para mim. Não era minha, mas chamava meu nome. E agora, eu não sei mais se ela é minha ou eu que sou dela!

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