Mondo Bongo

Xeque-mate, baby!

A porta do pequeno restaurante se abriu. Os sinos alertaram todos de sua entrada.  O homem alto apontou com a cabeça a porta azul na parte de trás do estabelecimento. A mulher de vestido preto começou a caminhar.

A tensão era quase palpável. Eles não trocavam palavras, não que fossem necessárias, mas caminhavam lentamente passando por entre as mesas de toalhas xadrez verde e vermelha, um de cada lado. Os crisântemos nos longos e finos vazos de vidro em cima das mesas pareciam olhar para aqueles dois estranhos que se dirigiam aos fundos do restaurante, onde havia uma pequena área na qual a banda se havia instalado à esquerda embaixo de uma árvore.

O soar do tambor, do violino, do acordeon, a voz baixa do cantor, tudo funcionava em perfeita sincronia com as passadas calculadas de cada um daqueles dois indivíduos que se aproximavam vagarosamente, atraindo alguns olhares suspeitos.  O barulho dos talheres nos pratos, a fumaça dos cigarros e os burburinhos dos cochichos ficaram para trás ao passarem pela larga porta azul que guardava o pequeno espaço perdido entre as arvores.

O homem alto adiantou alguns passou, virou-se para a mulher de vestido preto e estendeu a mão. Ela parou, analisou o cenário e ficou imóvel por alguns segundos, olhado a mão que lhe era estendida. Hesitante, ela levou sua mão em direção à mão do homem alto à sua frente. Ela encarou seus cabelos castanho-claro que refletiam o amarelo das luzes e o vermelho do véu quase transparente que revestia o pequeno toldo sobre suas cabeças. “Será que ele sempre foi assim? Tão reluzente?”, ela pensou.

A banda tocava cada vez mais alto aquele balanço, aquela melodia, aquele Mondo Bongo. O pequeno restaurante, com suas luzes vermelhas e amarelas, desapareceu e só havia dois corpos que se balançavam descordenadamente em sintonia de um lado par ao outro, hipnotizados pelo som despertador daquela melodia nada ignorável.

Ele a girava pelo pequeno espaço ladrilhado no centro do pátio enquanto ela se deixava guiar de olhos fechados. O perfume da mulher de preto penetrava-lhe os sentidos, fazendo com que fosse difícil para ele se concentrar, e dificultando sua respiração. Ele firmou mais a sua mão nas costas da moça. Ela abriu os olhos surpresa. Agora, eles dançavam sem tirar os olhos um do outro.

A atração era incontrolável como um imã de dois polos diferentes que se atraem ao invés de se repelirem. Sem deixar de dançar, o homem alto alternava suas mãos ao acariciar as costas e o rosto da mulher de preto. O fazia com o carinho e a urgência de alguém que luta para se salvar, como se sua vida dependesse daquele momento. Ela, sentido-se como se alguém tivesse acendido uma fogueira dentro de seu peito, acariciava-lhe os cabelos, olhando-o com ternura e um ar de dor nos olhos.

O homem alto abraçou-a, buscando confortar-lhe do que parecia lhe incomodar. A mulher de preto pôs-se nos pés deles como uma criança e se deixou ser envolvida por seus braços. Uma mistura de sensações corria-lhe a mente, o peito e o corpo. Divida entre fazer o que queria e o que deveria. Queria não pensar, não escolher, não decidir – era o que me parecia. Ele continuava embalando-a de um lado para o outro.

Ela desce dos pés do homem alto e se desvencilha de seu abraço. Ele, com a cabeça inclinada um pouco para a esquerda, a olhava confuso. Ela encarava  o ladrilho novo do chão gasto. Ele tenta se aproximar, mas ela dá um passo para trás pondo a mão no seu peito para parar-lhe o movimento. Os integrantes da banda se olham e começam a tocar o Mondo Bongo mais suavemente.

Não sei se devo deixá-los a sós para conversarem ou se fico por mais tempo para ver onde essa história termina. Gostaria de poder ler seus pensamentos e saber de sua história, mas talvez isso estragasse esse momento. A paixão, a proibição, o desejo, a confusão e, acima de tudo, o mistério que eles representam é o que deixa tudo mais saboroso. Os dois, agora parados, apenas se olham e ele segura a mão dela, que ainda está em seu peito.

Levanto-me de minha mesa e eles parecem nem perceber. Enquanto passo pela larga porta azul, eles permanece imóveis ao fundo. Todos no restaurante continuavam com suas conversas, tragos e tragadas sem se deixar incomodar por aquela cena no lado de fora.

Ao passar pelas mesas de toalhas xadrez verde e vermelha e pelos crisântemos, sinto a música desaparecer aos poucos. Uma última espiada. Os dois continuam parados. Juro que posso ver o rosto da mulher de preto cintilar. Talvez sejam lágrimas, mas não sei ao certo, pois a distância agora é grande demais para concluir qualquer coisa. A porta do restaurante se fecha atrás de mim. Acabou o Mondo Bongo!

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