A Verdade E A Velhinha

Tudo bem?, o porteiro do banco me perguntou quando cheguei. Parei e pensei um pouco. Pensei nas contas a pagar, no trabalho insatisfatório que tenho, no almoço de família que ocorre todo o santo domingo e que eu odeio. Também pensei na situação política do país, na situação esportiva na qual a seleção se encontra e me lembrei que deixei a luz do quarto ligada. “Ótimo, a conta de luz vai vir bem baixinha nesse mês”, gritei furiosa em pensamento. “Sim, tudo ótimo e contigo?”, respondo finalmente.

Quem, em sã consciência, responde com total sinceridade a essa pergunta? Mesmo que não esteja tudo bem, a resposta usual é ‘Sim, tudo ótimo’. Cansei. Hoje, eu decidi que não iria mais mentir. Quando alguém me fizer essa ridícula pergunta, eu responderei exatamente como eu me sinto.

Fiquei pensando naquela velhinha do meu prédio que todo dia leva seu marido até o portão do prédio e se despede dele com um beijo modesto e significantemente longo. Aquela velhinha que vive cantarolando músicas do Roberto Carlos, Amado Batista e Chico Buarque, mas que juro que eu a ouvi cantar algo do tipo “can’t read my poker face” ontem. Aquela velhinha que sempre tem a casa cheia de amigas tomando chá, tricotando e comentando uma fofoquinha aqui e ali. Aquela velhinha que, com um sorriso estampado no rosto, sempre me pergunta: “Tudo bem, querida?” Hoje, eu respondo exatamente o que EU quero responder.

Quando cheguei no prédio, lá estava ela, abrindo a porta do nosso bloco. Ela me saudou com aquela pergunta: tudo bem?

Não, Dona Maria, não esta nada bem. Meu trabalho me limita e me mata aos poucos. Meu dia se resume em conceder ou não empréstimos para diversas pessoas e ouvi-las me xingar quando eu nego seus pedidos. Tenho as minhas contas para pagar, tranquei a faculdade e a minha mãe vive me ligando para que eu compareça aos almoços de família aos domingos. O transporte público que eu pego para o trabalho está sempre lotado e ter que suportar aquela mistura de odores é quase impossível. As minhas amigas vivem em festas das quais eu não sinto nenhuma vontade de participar e a última cantada que eu levei foi de um pedreiro numa construção. Mas isso não é o que dói mais. O que dói mais é saber que acabei como o meu namorado semana passada e eu nem sei o porquê. Toda as tardes, eu volto para o meu apartamento sozinha. Eu não tenho ninguém que me recepcione ou que me leve até o portão do prédio para se despedir me mim ou vice versa.

Foi isso o que eu pensei, mas no fim acabei respondendo: Sim, Dona Maria, tudo bem e com a senhora? Ela sorriu gentilmente e disse que estava tudo bem. Subimos as escadas juntas, falando sobre o dia das duas e cada uma foi para seu apartamento, falando a verdade ou não sobre como estávamos.

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