Quero sempre assim

Ontem à noite, tu me achaste na sacada, sentada na cadeira de balanço me enclinando bem pra trás com as pernas no parapeito enquanto eu olhava, serenamente, a lua. Tu voltaste para o quarto e pegaste um cobertor. Me tiraste da cadeira e me puseste no teu colo. E lá ficamos no suave embalo hipnotizante da cadeira e da lua.

Eu a invejei: por ser tão bela e brilhante, tão iluminada e reluzente.

E eu senti pena dela: por não poder ter alguém como eu te tenho.

Tá pensando no quê? – tu me perguntaste.

-Tô pensando no quanto eu tô cansada e exausta. Tô pensando no quanto eu já vivi nesse ano e no quanto eu quero que esse ano acabe e o próximo comece. Tô cansada de dormir tarde e acordar cedo. Cansada de estudar, de trabalhar. Cansada de gente e de não ter gente. Cansada de incerteza e de babaquices, imaturidade. Cansada de desigualdade e de egoísmo.

Hummm, murmuraste,  e exausta de quê?

– Exausta me sentir inadequada, de me sentir egoísta. Exausta de magoar os outros e de tentar antecipar tudo. Exausta de enganar e de ser passada pra trás. Exausta de fazer tudo para agradar os outros e ser quase incapaz de dizer não. Exausta de me sentir presa e exausta de ter “muita” liberdade. Exausta de ter que me portar como adulta o tempo todo. Exausta com as formigas que vivem adentrando o nosso quarto e exausta com o preço da comida.

Hummm, entendo! – disseste e me abraçaste mais forte.

Ficamos lá por mais um tempo. Tu te levantaste, me deste um beijo na testa e disseste:

Vamos dormir?

Eu olhei pra baixo e ri. Ri de felicidade, de alívio, de alegria, de amor.

– Vamos! – respondi ao levantar a cabeça – Sabias que eu adoro esse teu jeito de saber exatamento quando as palavras são necessárias ou não?

Sabia! – respondeste com a conviccão mais orgulhosa do mundo – E tu sabias que eu adoro essa tua mania de sempre dar uma resposta completa e honesta pras perguntas?

Ah é, é?

Eu pulo nas tuas costas e tu me levas pra dentro.  Me colocas no chão, olha tão profudamente nos meus olhos que eu tenho medo do que tu possas ver lá dentro.

Eu te amo! – sussurras quase cantando.

– Eu te amo! – respondo sem QUE’s ou TAMBÉM’s e fico pensando no que eu possivelmente poderia ter feito que seja considerado digno o suficiente para te ter na minha vida.

– Eu te amo! – repito mais uma vez, agora deitados, só para que tu tenhas certeza. Dormimos!

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