Era Natal

Saí apressada do trabalho. Era para eu ter trabalhado somente até às duas horas naquele 24/12, mas meu chefe teve a brilhante idéia de seguirmos até às cinco para terminarmos o comercial de uma nova importadora de carros. Corri até o mercado mais próximo na esperança de comprar qualquer coisa que talvez fizesse com que aquele primeiro 25 de Dezembro sozinha parecesse um Natal de verdade.

É claro que não havia mais nenhum Chester, Bruster ou qualquer coisa que se parecesse com uma ave, então peguei um frango dessossado no açougue. Também não havia muito o que comprar, até porque não havia mais uma grande variedade de produtos. Peguei algumas mangas para fazer o famoso Arroz 7 Grãos com Manga que a minha mãe costumava fazer e fui para a àrea das verduras. Havia alguns poucos repolhos, uns pés destroçados de alface e algo que lembrava um cérebro esmagado mas que deveria ser as beterrabas. Meu alvo eram os pimentões, os tomates e as cenouras para fazer algo que NUNCA faltava nas ceias de Natal com a minha família: SALPICÃO.

Quando fui pegar as últimas três cenouras, uma outra mão se meteu no meu caminho. Era um rapaz alto, cabelos negros e pele clara contrastando com seus olhos azuis (não que eu tenha reparado muito). Cada um segurando em uma ponta das cenouras, se analisando, estudando o oponente. Cena, ridícula, eu sei, mas, de repente, o motivo da minha existência e felicidade dependia daquelas cenouras. Era por elas que eu respirava e ficava em pé depois daquele exaustivo dia de trabalho ou, talvez, ano.

Ficamos nos encarando por um tempo, cada um puxando discretamente as cenouras para o seu lado enquanto media as palavras. Eu estava cansada e não tinha tempo para brincadeiras. Fui direta.

– Oi, tudo bom? Prazer, Daniela.

Arthur, respondeu secamente.

– Olha, Arthur, eu trabalhei até às 17h, tô podre de cansada e eu só quero terminar essas compras, ir pra casa, tomar um banho e fazer uma janta rápida.

Tudo bem, não sou eu quem irá te impedir.

– Beleza, então solta as cenouras.

É, acho que isso não vai acontecer.

Olhei pasma para ele. Eu não acreditava que aquele moleque ia estragar a minha véspera de Natal.

Tá, tô vendo que você não vai desistir tão fácil – você? é incrível como aquele jeito paulista me irritou – então quanto você vai querer para soltar as cenouras?

Como é que é?

É, garota, qual a quantia de dinheiro?

– Nenhuma, isso não é pelo dinheiro ou pelo meu ego. Eu preciso destas cenouras pra minha ceia de Natal! – me ouvi falar com a voz esganiçada e uma lágrima caindo do meu rosto.

O olhar dele mudou totalmente.

– Desculpa por essa situação, mas é que eu me mudei faz uns três meses e eu nem conheço a cidade direito e a minha família mora toda no sul do país e meu chefe fez com que trabalhássemos até hoje e eu não pude ir visitá-los e eu estou cansada e…

Ele me cala com um beijo.

Você fala demais, né? Já entendi. Eu também vou passar esse Natal sem os coroas. Sem problemas! – disse, sorindo tão brilhante e honestamente quanto alguém poderia sorrir. Parecia um outro rapaz.

Ele estava indo embora quando, incoscientemente e quase gritando, eu disse:

– Queres passar a véspera comigo?

Ele se vira, rindo um pouco, me analisando.

– Eu não sou nenhuma maluca psicótica, a não ser quando tentam roubar as minhas cenouras…

– É eu percebi! – diz, sorrindo da mesma maneira.

– Mas eu que eu realmente não queria ficar sozinha e tu pareces inofensivo e já que travamos uma batalha tão acirrada por estas cenouras, que tal se nós as dividíssimos?

Pareço inofensivo, é?

– Devo ter medo?

Talvez um pouco.

Rimos. Fomos para o caixa, pagamos nossas compras e fomos para o meu apartamento, é claro. Pegamos o frango que ele tinha encomendado numa padaria, fiz o Arroz Sete Grãos com Manga e o salpicão. De banho tomado, ele arrumou a mesa na sacadinha: pratos, talheres, taças, velas e um Chardonnay.

Sentamos para comer com os pés no parapeito e uma lua imensa acima das nossas cabeças. Conversa vai, conversa vem, ele diz:

Eu não queria as cenouras.

– Como assim?

É, eu não as queria.

– O que foi aquilo então? – perguntei confusa.

Eu queria a garota que queria as cenouras.

Eu não sei qual foi a minha reação, mas ele rapidamente se explicou.

Eu vi a cara de alívio quando você olhou para as cenouras. Sabia que aquele era o seu último destino e a minha primeira e última chance de tentar te conquistar. Desculpa se eu fiz com que você se sentisse enganada, mas tudo aconteceu muito rápido e foi minha primeira idéia e…

Silencio-o com um beijo.

-Tu falas demais, né?

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