A Doença

Eu não sei como e quando começou ou o que originou essa doença. Quando vi, já estava contaminada. Talvez tenha sido inconscientemente intencional, talvez intencionalmente acidental, mas fui contaminada.

Eu o encontrei doente, destruído, despedaçado, depressivo, destituído de tudo que compunha a maravilhosidade de ser quem ele era. Ele já não era o mesmo que eu havia conhecido há tantos anos, era o resto dele. A doença o havia contaminado quase que completamente.

Ele me ligou naquele dia dizendo que ela o havia deixado. Traído, trocado, largado, ele se sentia. Para mim, ele parecia imprestável naquelas condições. Grandes olheiras ao redor dos olhos cor de mel, cabelo bagunçado, a barba por fazer há algumas semanas. O apartamento está completamente sujo: comida misturada com as roupas, a pia cheia de louça e as persianas sempre fechadas davam um toque sinistro especial ao local. Talvez ele não tomasse banho fazia alguns dias, o que não era nada atraente. Ele estava completamente quebrado, mas talvez tenha sido isso. É, foi isso. Eu me apaixonei pela fragilidade e pela fraqueza dele e pelo ser que necessitava de mim, da minha ajuda. Droga, eu queria que eu alguém precisasse de mim!

Ele implorou pela minha ajuda. Disse que aquilo o estava corroendo, que não tinha forças pra sair de casa e que ninguém o amava. Ele havia dado seu coração para ela, mas ela não soube guardá-lo. Ele estava precisando de um coração, qualquer coração, e eu resolvi lhe entregar o meu. Começamos aos poucos. Primeiro, dei um jeito nele: ele tomou um banho, fez a barba e cortou o cabelo. Depois arrumamos o apartamento: roupas, louça, chão. Passeamos algumas vezes no parque à luz do dia para que ele se acostumasse de novo com o sol. Praticamos esportes, alugamos filmes, fomos em algumas festas, tudo para que ele superasse aquele trauma.

O tempo foi passando e a recuperação ficava cada vez mais evidente. Eu me empenhava arduamente em fazê-lo feliz, pois ele também me fazia feliz. E não era isso o que eu queria, ser feliz? Então ele estava feliz, mais otimista, tinha voltado a trabalhar e estava saindo com os seus amigos novamente e isso me fazia feliz. E a felicidade dele era tanta que ele arranjou uma nova namorada.

-Muito obrigada pela ajuda, Dani. Você é realmente uma grande amiga.

Amiga? Como assim? Peraí, volta aqui, explica isso direito. E as lágrimas derramadas no meu colo, foram vãs? E os gritos que eu acalmei enquanto tu dormias, um dever? E os beijos trocados, só prazer? E todo o trabalho que eu passei pra te consertar, foi banal?

Então, eu era somente a A M I G A. O horrível  som dessa palavra maltrata os meus ouvidos. Eu me doei para ele e me dediquei. Assim, como ele havia feito, entreguei meu coração para ele; e assim como ela havia feito, ele só deixou um buraco no meu peito onde outrora havia o que eu possuía de mais valioso.

Agora, a doente sou eu. Desleixada, desmotivada, destruída e com um buraco gélido e sangrento no peito. Refugiada nos meu próprios pensamentos, nas minhas lembranças e nas minhas ilusões. O tempo parece não passar, a comida não é mais tão saborosa, as cores parecem mais desbotadas. Não encontro sentido em trabalhar, em dar continuada àquelas conversas desconfortáveis de elevador e em retornar ligações, a não ser que sejam dele.

Por todos os lugares que eu ando, as pessoas parecem me olhar de cantinho, desconfiadas. Elas devem estar pensando: “Pobre, garota. Olhe o estado dela. Deve estar num estado terminal.” E eu tenho medo de mim mesma. Medo desse monstro fraco e oprimido que toma conta de mim a cada dia que passa. Talvez eu só devesse parar de esperar por alguém que me salve assim como eu o salvei, porque finais felizes só vemos no cinema.

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