O (quase) beijo

Seja quem for.

Uma daquelas situações que, sem dúvida, só acontece comigo.

Eu o conheci no elevador do condomínio. Entramos juntos.

– Sexto andar, por favor! – pedi educadamente.

– Vou pra esse andar também. Eu sou o novo vizinho – ele respondeu sorrindo de orelha a orelha. Lindo! – Tudo bem?

Tudo e contigo?

Tudo também.

Moreno. Alto. Magrinho, mas fortinho. Olhos cor de mel. “Tô feita”, pensei. De repente, um barulho e um solavanco. As luzes se apagam por alguns segundos e depois voltam.

– Desculpe, pessoal, – ouvimos pelo rádio do elevador – Ouve uma queda de luz e vocês terão que ficar aí por alguns minutos!

– Pode deixar que daqui a gente não sai. – respondi ironicamente. Ele riu mais uma vez, espontânea e brilhantemente. Analisou as minhas compras.

Sorvete e chocolate numa sexta-feira à noite. Uau.

A TPM é minha e eu lido da maneira que eu quiser.

HA HA HA, ótima resposta.

Quem fala o que quer, ouve o que não quer.

Garota sábia, diz e pisca pra mim. Sem malícia ou qualquer segunda intenção, pisca como se piscasse para uma antiga amiga.

“Heaven” do Bryan Adams começa a tocar. Levanto uma sombrancelha.

Minha namorada! – responde e atende – Oi, princesa!

A letra da música e a resposta causam-me um enjoo repentino dando-me vontade de vomitar. Respiro fundo. É claro que ele tem namorada. Dã-ã!

Ele começa, então, a falar mais alto, implorando ao celular com a pessoa do outro lado da linha. Andava de um lado para o outro, jesticulava, argumentava, mas pareceu não surtir efeito.

Sorte! – falou antes de jogar o celular no chão e, desolado, diz:  Não acredito!

Agachou-se no canto do elevador levando as mãos aos cabelos castanhos num sinal de desespero. Os olhos de mel fechados, testa enrugada, cabeça no joelho, respirando rápido demais. Ele não devia ter mais do que 25 anos. Um homem daquele tamanho naquele estado. Tão viril, tão frágil.

“Quando tudo ainda estava inteiro / No instante em que desmoronou”, cantou baixinho, com voz rouca.

– Noite difícil?

Tô preso nesse elevador há 15 minutos e a minha namorada terminou comigo porque está apaixonada pelo meu melhor amigo. Que tu acha?

Penso no que leva o homem ao meu lado desejar ‘boa sorte’ à ex que o troca pelo melhor amigo dele e não xingá-la até a sexta geração. Eu esperava por “piranha”, “safada”, “ordinária”, “maledita” e outras expressões de baixo calão, mas nada. Qual era a dessa moleque?

“Palavras duras em voz de veludo / E tudo muda, adeus velho mundo / Há um segundo tudo estava em paz”, ele continua.

Não respondo. Sento ao seu lado, pego alguns produtos das sacolas de compras, dou-lhe uma colher e ofereço:

“Cuide tudo que for verdadeiro / Deixe tudo que não for passar”. Sorvete e chocolate numa sexta à noite?

Ele ri, desanimado, mas aceita.

Você sempre tem colheres em mãos pra um situação dessas?

– Se tu não tá gostando, é só parar de comer.

Ele ri e tira o pote de sorvete da minha mão. Passamos as próximas três horas conversando sobre tudo. Tudo mesmo. Desde onde nascemos aos relacionamentos, traumas de infâncias, sonhos não realizados, empregos, música, filmes, hábitos. Tudo!

– Nossa, é meia noite.

E cada segundo, cada momento, cada instante / É quase eterno, passa devagar”, esqueceu? Nesse caso, passa rápido!

Ah, é, desculpa.

Por que tu compra sorvete napolitano se tu não gosta do chocolate?

– Porque eu gosto de morango e de creme.

Que maluca.

– Ah, é, bem eu que tenho mania de organização e sei falar esperanto.

Não fala do meu esperanto. Faço o maior sucesso nas baladas sussurrando palavras em esperando no ouvido das garotas.

– Nossa, imagino.

Ele me empurrou com o braço e ficou me olhando. E eu sabia que aquela era A hora, porque a gente sempre sabe. A gente simplesmente sabe. É um olhar universal. A pessoa para e se move de um jeito diferente, te olha de um jeito sereno e profundo (parece que ela vê através da gente) e a boca fica mais descontraída, só esperando.

“O segundo que antecede o beijo”sussura enquanto vem em minha direção.

B A M ! As portas se abrem. Os infelizes do condomínio resolvem nos socorrer justo naquela hora depois de  4 horas.

– Vocês estão bem? – o bombeiro pergunta.

Nos olhamos e rimos.

– Sim, sim, estamos! – respondi

– Mas vocês poderiam ter demorado um pouquinho mais.

Deixamos o pessoal arrumando o elevador e fomos até o sexto andar pelas escadas.

– Eu moro aqui no 604.

Eu moro ali no final do corredor. Sempre que quiser, as portas do 608 estarão abertas.

Pode deixar.

Rimos. Ele me olha daquela maneira e novamente, de um jeito sereno, seguro e devegar, se apróxima.

–  “Não sei bem certo / Se é só ilusão / Se é você já perto /Se é intuição”, recito ao impedi-lo colocando a mão em seu peito.

– “Vem pro meu mundo / Eu sempre vou te esperar”.

E me beija.

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