Situação

Ouça.

No dia da revelação. Terça à noite.

“- Então tá. Era isso. Acabou!

Foi o que ela disse, com a cabeça erguida, sorrindo com a boca e com os olhos, mas com o grito e o choro sufocados na garganta e o coração partido. Ah, doce som de clichê.

– Sabíamos que as coisas não acabariam bem. Era evidente. Por quê, então? Por que começamos?

Ah, para. Foi bom enquanto durou. Aconteceu.

– Aconteceu? Só isso que tu tem pra me dizer?

Eu errei, eu sei. Só posso te pedir desculpas agora.

Silêncio.

Eu quis te contar antes, mas não sabia como.

– E resolveu contar na pior hora possível.

Tu viu nos meus olhos antes mesmo de eu te responder.

– É, mas tu podia ter me contado antes.

– Eu sei, mas não era uma coisa fácil de se fazer. Eu não podia te mandar uma mensagem ou e-mail e era isso.

– Tudo bem.

Tipo, não tínhamos nada sério.

– Pois é.

E a gente não estava bem aquela semana.

Aham.

E tu sabe que eu sou impulsivo. Fui assim minha vida inteira. Eu sempre fiz as coisas assim.

– É, eu sei.

Silêncio.

Em que tu tá pensando?

– Nada. Só esquece. Deixa pra lá.

É isso que me irrita. Tu sempre diz “esquece”. Por que tu nunca me diz o que tu estás pensando?

– Eu sempre te digo o que eu tô pensando.

É, mas eu tenho que, praticamente, arrancar de ti.

– Tá bom, desculpa.

Ah, não pede desculpa!

Silêncio.

Eu odeio essa situação.

Faz parte. Acontece nas melhores famílias.

Alguém liga pra ele. Ele atende. Tem que ir buscar a mãe.

Eu tenho que ir.

– Tudo bem.

Não queria deixar as coisas assim.

– Paciência.

Eles se abraçam. Ainda abraçados ela diz:

– Sabe quando eu comecei a desconfiar que algo não estava certo?

Quando?

– Na segunda-feira após o “incidente”. Tu me abraçou de um mode impessoal. Quase não encostou em mim. O teu abraço normal era como o que tu me deste agora, envolvente e forte.

Nem percebi.

– Pois é.

Soltam-se. Silêncio. Ele na porta.

Tu não ficou com ninguém também?

– Não!

Ah, não diz que não só pra fazer com que eu me sinta mais culpado.

– Se tu quiser que eu diga que SIM só pra que TU te sintas melhor, eu digo.

Não, eu quero a verdade.

– Ah verdade é essa, eu não fiquei com ninguém!

Nem sentiu vontade?

– Não. Eu te disse que quando estou com alguém não tenho olhos pra mais ninguém. Eu não vejo ninguém.

Ele fica com o olhar perdido, arrependido talvez.

– Vai lá.

Tchau.

– Tchau.”

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