Mercadinho da Dona Sônia

Tocava sempre no radinho de pilha do mercadinho!

Eu tive que ir sozinha ao Mercadinho da Dona Sônia essa semana, porque antes era tu quem fazia as compras ou íamos juntos.

Eu me lembro da primeira vez que eu te levei lá: foi num sábado de tardezinha. Fazia três semana que tínhamos nos conhecido e tu foste comigo comprar toalha de papel, açucar, pipoca, uma escova de dente (pra ti), carne pro almoço que tu insistira em fazer no domingo e leite condesado para a sobremesa que ficara por minha conta. O pessoal te adorou, como já era o esperado e o engraçado é que não chegamos perto da cozinha naquele final de semana.

Bom, comprei o que eu precisava e, já que tu não estavas lá, comprei outrascositas que não eram tão necessárias.

– Não, a gente não precisa de chocolate. Vamos lá para as verduras – tu dizias. E eu ria, porque o viciado em chocolate era tu e não eu. Depois de muitas negociações, eu levava duas caixinhas de bis branco e tu pegavas alguns pepinos, tomates e alface – para eu comer, porque tu odeias frutas e legumes. Ah, e a Sprite sagrada (eca!).

Todos ficaram me olhando estranho, meio pensativos, porque tu te tornaste o cliente fiel da Dona Sônia. Logo depois que nos conhecemos, eu fui promovida e, consequentemente, mais trabalho. Então tu ficaste encarregado das compras durante a semana e nós dois no final de semana. Mas eu nunca aparecia no mercadinho sozinha.

Lembra daquele dia em que começou a cair uma chuva forte do nada e, que por preguiça de andarmos mais rápido ou corrermos, chegamos lá encharcados? E daquele dia em que eu te tirei da cama às 6h da manhã, também de um sábado, só para que tu comprasses um absorvente pra mim e tu foste de roupão e com a minha pantufa da pantera cor-de-rosa?

É, e mesmo eles tendo pensado e estranhado um pouco eu aparecer sozinha, isso não impediu o Seu Régis (açogueiro), a Dona Carmen (padeira), o Dudu (empacotador) e a Dona Sônia – que nos conhecia muito bem – de perguntar:

– Ué, cadê o Dani?

– Bom, acho que o Dani não vem mais, gente.

Foi o suficiente para que eles entendessem a situação e lá ia eu ouvir 27 motivos para eu não ficar triste e que quem sabe se nós tentássemos mais uma vez, porque éramos tão perfeitos juntos e blá blá blá. E pra completar, a frase esmagadora da Dona Sônia:

– Ai, querida, é uma pena, pois o mercadinho não será o mesmo sem vocês dois aqui.

“Eu sei, Dona Sônia, a minha vida não é a mesma sem ele também”, eu pensei.

Lembra naquele dia que eu te liguei chorando ao sair do trabalho e tu me ouviste, todo atencioso, e disseste que não era pra eu me preocupar, porque tu iria dar certo e que logo eu teria uma surpresa. Tu não me disseste quando e qual seria a surpresa e desligaste o telefone. Qual não foi meu espanto quando eu te vi no corredor dos doces do Mercadinho da Dona Sônia. Acho que só havia passado uma semana desde a primeira vez que eu tinha te levado lá e com só um mês de “rolo” tu sabias que eu iria me consolar com chocolates.

Passada aquela cerimônia, voltei à estante dos doces e peguei mais alguns chocolates. Fiquei encarando aquela latinha de Sprite no freezer do mercadinho, mas peguei a Fanta Uva ao lado dela.

Mesmo sendo um mercado pequeno, havia bastante movimento naquele dia. Havia duas meninas atendendo nos caixas, numa estavam uns 2 ou 3 meninos que trabalhavam lá mesmo e noutra um único cliente. Fui na que havia somente um cliente e em seguida o último dos meninos veio para o mesmo caixa para ser atendido mais rápido.

Quando a menina do caixa em que eu estava percebeu que ele estava ali, seus músculos contraíram e suas mãos começaram a tremer. Algo que, como você diria, somente eu notaria. Ela deu uma olhadela para o garoto atrás de mim e acertou com o cliente a minha frente. Quando foi a minha vez, ela me deu um bom dia meio desanimado, com um sorriso meio amarelo – talvez de nervosismo –  e deu uma olhadinha de canto de olho para se certificar de que ele ainda estava lá. Ela me deu o troco e eu fiquei enrolando para pegar as sacolas para ver, bem de cantinho, como ela reagiria ao atendê-lo.

Ah, quando eu te vi pela primeira vez lá no Mercadinho da Dona Sônia. Tu nem te lembras, porque tu não me viste. Tínhamos 12 anos e eu me apaixonei na lata. Eu estava com a minha avó e tu com o teu irmão mais velho. Acho que vocês estavam visitando uma tia de vocês naquele bairro ou algo assim. Tu estavas vestindo uma bermuda preta, uma blusa vermelha e havaianas brancas. Cabelo meio desarrumado, correntinha de prata, bem se achando o dono do mundo. Eu me senti como a garota do caixa. Quando eu te vi, meus músculos contraíram, ficou difícil respirar e deixar a boca fechada. Todos pareciam estar andando em câmera lenta e eu só ouvia a tua risada. Sete anos depois nos reencontramos, não no Mercadinho da Dona Sônia, mas oficializamos as coisas lá.

Na vez do garoto, os músculos da garota do caixa descontraíram e ela começou a respirar mais calmamente, deu um bom dia mais animado e um sorriso mais sincero. Pela reação dela, ela devia gostar bastante dele e o garoto devia ser bonito, mas não sei dizer ao certo, porque eu não olhei para o rosto dele. Não sei se pela preguiça de ter que me virar ou pelo medo de vê-lo e esquecer do teu rosto, do teu maxilar, dos teus olhos e nariz, da tua simetria perfeita. O certo é que ela sentia algo por aquele garoto e sabe-se lá se ele correspondia ou sequer suspeitava.

Eu saí rindo do mercadinho e olhei para o lado para comentar a cena contigo. Ah é, tu não estavas lá. Então lembrei que, assim como tu perdeste essa cena, tu perderias muitas outras. Mas eu fico lembrando dela, pra que um dia desses, quem sabe, eu te encontre lá e possa te contar essa história e nós possamos tirar sarro dos dois e ter mais um momento feliz lá no Mercadinho da Dona Sônia.

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